Aproveitando o ócio do feriado, os amigos José e Vitor compartilham a quietude de uma partida de xadrez. Por alguns minutos, só o que se ouve é o barulho das peças sendo depositadas com uma elegância brusca, demonstrando a segurança de cada movimento executado.
Por alguns minutos, só o que se fala é:
- Quer mais cerveja?
- Sim, por favor.
Em determinado momento, Vitor usa sua rainha para eliminar o bispo de José. José fica quieto, olhando para o tabuleiro, pensativo, quando de repente quebra aquele silêncio:
- Eu acho que o xadrez foi inventado por uma mulher.
- Hã?
- O jogo. Este jogo. Acho que foi uma mulher que inventou.
- Do que você está falando? Ninguém sabe quem inventou. Mas, não tem muita chance de ter sido uma mulher. O xadrez é um jogo muito antigo, numa sociedade machista, na época em que as mulheres não tinham voz, nem vez, nem instrução.
- Elas não tinham voz, nem vez perante a sociedade, mas sempre existiram aquelas que sabiam muito bem dobrar seus maridos. Existem muitas histórias, lendas antigas que narram muito bem a força das mulheres. Tróia entrou em guerra por causa de Helena, uma mulher. Sansão se deu mal por que uma mulher o convenceu a contar seu segredo. Hoje não moramos num lugar chamado Éden, correndo pelados e de pernas pro ar por que Eva sucumbiu à tentação de uma cobra. Sem trocadilho.
- Sim, nisso tudo você tem razão. Mas, por que uma mulher haveria inventado o xadrez?
- É obvio, Vitor. O jogo é muito organizado. Torres nas pontas, rei e rainha no meio. O rei é a peça mais importante do tabuleiro, mesmo sendo uma peça frágil, de movimentos limitados. A rainha é a peça mais poderosa. Anda como quer, por onde quer. As mensagens subliminares deste jogo não estão claras?
- Não sei se isso pode ter lógica.
- Exatamente! Um jogo organizado e sem lógica. De onde tiraram a ideia que um cavalo anda em L? Tem que ter sido criado por uma mulher. É muito inteligente e complicado para ter sido feito por um homem.
- Vou discordar de você.
- Por quê?
- Esse jogo tem que ser jogado de boca fechada.
Vitor fica quieto por alguns instantes.
- É... Não deve ter sido uma mulher.