#Cronica O fim do mundo (por Luis Giffoni)

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Se os intérpretes malucos do calendário maia estiverem corretos, estamos a pouco mais de um mês do fim do mundo. Será meu centésimo. Por cem vezes, mandaram me arrepender de não sei o que e me preparar para o pior. Até me aconselharam a vender tudo o que tinha. Estranhei. De duas, uma: quem comprasse minhas coisas ou seria lesado ou escaparia da hecatombe. Preferi pagar para ver. Ainda bem.

Vi, li e ouvi previsões sobre as desgraças futuras em escritos de Nostradamus, na Bíblia, em mensagens de ETs e cometas, em sinais na natureza, na histeria de pregadores. Ao consultar a história, descobri fins do mundo marcados para 35 séculos atrás. 35, 34, 33... 21, 20, 19, 18... 11, 10, 9, 8, 7... 1. Além disso, enfrentei-os em todos os anos de minha vida. Cada um teve seus crédulos. Quando a manhã seguinte raiou, os apocalípticos encararam a vida sob o olhar irônico da maioria que não deu a mínima para o vaticínio. Houve, aliás, um pastor americano que antecipou corretamente o final. Até exagerou, pois o fez quatro vezes seguidas. Falhava uma vez, adiava para o mês seguinte, falhava, adiava e, por fim, acertou. Na cabeça. Um tiro de revólver.

No entanto, o fim do mundo maia pegou pelo pé muitos incautos, até em Minas Gerais. Os mais apavorados não dormem, estocam água e comida, fogem para longe. Centenas de livros abordam o assunto. A maioria apregoa a iminência da tragédia. Nenhum, até agora, constatou que os maias, sábios que eram, não conseguiram prever o fim da própria civilização. Poucos autores informam que seu calendário não termina em 2012, pois hecatombes agitam o imaginário ocidental, ávido por armagedons, juízos finais e apocalipses. Sem falar que os sem-escrúpulos usam o medo como grande manipulador de fiéis. O fim do mundo tornou-se, há milênios, uma grande indústria. Dá grana e poder.A maior arrogância do ser humano é acreditar que o universo foi feito para ele, transformando mito em fato. Muito antes de o primeiro Homo sapiens andar pela Terra, milhões de outras espécies haviam surgido. E também desaparecido, às vezes durante extermínios em massa que nada tiveram de sobrenatural. É mais provável que soframos a extinção por desrespeito a nós mesmos, e a Terra rolará pelo espaço sem se dar conta de que não mais a habitamos.

Assim, já comecei a comprar presentes para o Natal que, em 2012, não mais deveria acontecer e, no entretanto, acontecerá. Sinto, porém, uma pontinha de tristeza: pela centésima vez, enfrentarei a frustração. Perderei toda aque­­la apoteose pirotécnica prometida, com bolas de fogo despencando do céu, labaredas subindo das profundezas, a terra se abrindo, luzes cegantes vindo de todas as direções, vendavais, trovões, trevas, cometas, asteroides, buracos negros, terremotos, maremotos, clarins, trombetas, tambores, cuícas e reco-recos, a fanfarra zoando em decibéis de boate, espetáculo que nenhum Joãosinho Trinta jamais conceberia. Creio até que um evento de tamanha magnitude o Brasil nunca conseguirá produzir, mesmo depois de adquirirmos experiência com a abertura da Copa e da Olimpíada. Sem falar que o show será de graça, sem fila para pegar ingresso, todos com direito a poltrona vip. E mais: nossas leis de incentivo à cultura não comportam tamanho dispêndio.

Desconsolado, constato que, pela centésima vez, não testemunharei o fim do mundo. Com ele, sempre previsto e eternamente adiado, aprendi o limite da condição humana: não devemos sonhar com mais areia do que cabe em nosso humilde caminhãozinho.



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#Cronica Xadrez (por João Chiodini)

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Aproveitando o ócio do feriado, os amigos José e Vitor compartilham a quietude de uma partida de xadrez. Por alguns minutos, só o que se ouve é o barulho das peças sendo depositadas com uma elegância brusca, demonstrando a segurança de cada movimento executado.
Por alguns minutos, só o que se fala é:
- Quer mais cerveja?
- Sim, por favor.
Em determinado momento, Vitor usa sua rainha para eliminar o bispo de José. José fica quieto, olhando para o tabuleiro, pensativo, quando de repente quebra aquele silêncio:
- Eu acho que o xadrez foi inventado por uma mulher.
- Hã?
- O jogo. Este jogo. Acho que foi uma mulher que inventou.
- Do que você está falando? Ninguém sabe quem inventou. Mas, não tem muita chance de ter sido uma mulher. O xadrez é um jogo muito antigo, numa sociedade machista, na época em que as mulheres não tinham voz, nem vez, nem instrução.
- Elas não tinham voz, nem vez perante a sociedade, mas sempre existiram aquelas que sabiam muito bem dobrar seus maridos. Existem muitas histórias, lendas antigas que narram muito bem a força das mulheres. Tróia entrou em guerra por causa de Helena, uma mulher. Sansão se deu mal por que uma mulher o convenceu a contar seu segredo. Hoje não moramos num lugar chamado Éden, correndo pelados e de pernas pro ar por que Eva sucumbiu à tentação de uma cobra. Sem trocadilho.
- Sim, nisso tudo você tem razão. Mas, por que uma mulher haveria inventado o xadrez?
- É obvio, Vitor. O jogo é muito organizado. Torres nas pontas, rei e rainha no meio. O rei é a peça mais importante do tabuleiro, mesmo sendo uma peça frágil, de movimentos limitados. A rainha é a peça mais poderosa. Anda como quer, por onde quer. As mensagens subliminares deste jogo não estão claras?
- Não sei se isso pode ter lógica.
- Exatamente! Um jogo organizado e sem lógica. De onde tiraram a ideia que um cavalo anda em L? Tem que ter sido criado por uma mulher. É muito inteligente e complicado para ter sido feito por um homem.
- Vou discordar de você.
- Por quê?
- Esse jogo tem que ser jogado de boca fechada.
Vitor fica quieto por alguns instantes.
- É... Não deve ter sido uma mulher.



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#Cronica Fora do Ar

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Na semana passada sair para almoçar com um amigo que vejo muito pouco , ele mal me cumprimentou e tirou o celular do bolso e colocou em cima da mesa . Logo após pedimos a carta de vinhos e enquanto eu achei que nós dois líamos o menu , reparei que ele não tirava os olhos do seu telefone móvel. Quando perguntei se o vinho que escolhi estava bom. Ele respondeu sem ao menos saber qual a marca da bebida e concordou comigo e virou-se para o visor novamente. Não resisti e brinquei que o post/mensagem deveria ser importante, ele apenas riu sem graça e devolveu a mesa o celular que a esta altura estava nas suas mãos.

Tentamos conversar um pouco , mais o tempo todo a conversa era interrompida , por ruído das mensagens que ele recebia , não só de textos, mas também de redes sociais. Foi difícil concluir um assunto por inteiro  Parecia até reunião de mulher que falamos de tudo e todos ao mesmo tempo onde a  interrupção é por assunto mais importante ou mais animado, não  pelos toques incessantes do celular ou por que amigo resolveu antes de comer o prato postar e enviar para as redes sociais, quase um Big Brother.
Não sou  contra ao uso de aparelhos celulares e mesmo que tivesse hoje seria impossível viver sem ele , como também nada contra a estar conectada, coisa que fico bastante tempo também. Porém , não acho legal a rotina ser cadenciada por esse tipo de aparelho , visto que no caso do meu amigo e não sei se é o seu , ele ultrapassou os limites da razoabilidade no seu uso.
Se usarmos a boa e velha linguagem analógica, a quantidade de aparelhos “inteligentes” disponíveis e modernos que tem no mercado é normal que se aumente a probabilidade de que eles virem quase uma extensão do corpo e também fiquem conectados demais e até mesmo viciados, doença que os ingleses apelidaram de nomofobia ou no-mobile.
De repente, você não conheça esse termo , trata-se do pânico de ficar sem conexão, via qualquer aparelho de celular. No caso o “doente” ou nomofóbico tem dificuldade de conter os impulsos de fazer ligações, mandar torpedos e fica o tempo “ligado” no seu aparelho , checando o tempo todo se alguém enviou alguma coisa há casos graves até mesmo de ouvir ligações imaginárias. E aí caros amigos que verificamos o desequilíbrio entre a necessidade de uso e a ansiedade de estar no ar.
A nomofobia é considerada hoje é mais dos tantos transtornos que foram criados pela psicologia moderno que apelida qualquer tipo de comportamento de transtornos, no caso em questão pode-se dizer que é o controle dos impulsos , assim como a dependência de sexo ou de compras, com a existência de também crises de abstinência , cada vez que se fica longe do aparelho tem o sintomas de : irritação, sudorese, taquicardia , dor de cabeça entre outras.
Não sei meu caro leitor se é o seu caso, mas para isso resolvemos fazer um teste  em podem dizer se você está adquirindo uma relação neurótica com seu telefone , veja abaixo e marque a alternativa ou as alternativas compatíveis com você:

a)     – (  ) Seu celular fica ligado por 24 horas.
b)     – (   ) Usa o celular na hora da malhação.
c)      – (   ) Seus amigos reclamam que você não desgrudada do celular.
d)     -  (   ) Interrompe reuniões de trabalho para ler mensagens.
e)     -  (   ) Anda com celular sempre a mão e enlouquece quando o esquece.
f)       – (   ) Há mais de uma alternativa compatível.
g)     -  (   ) Outras opções compatíveis ( coloque nos comentários do blog)

Se você marcou uma ou várias alternativas , você corre um grande risco de ter sido acometido por essa moderna doença e só resta para você um tratamento. Não pense que vou dar o conselho para que você não use o celular, sei da inviabilidade da coisa. Porém tentar  relaxar seria uma boa opção, do tipo ir caminhar na beira da praia, sentar no banco da praça , olhar ao esmo, ler um livro e tomar um chope com os amigos, mas não vale depois disso tudo correr para o aparelho para tuitar ou contar o que está fazendo. Senão , caro amigo, só me resta dizer que você não está mais precisando de uma boa relaxada, mais sim de uma visita ao terapeuta , para acabar com seu vício brabo e ficar “fora do ar”.

NEM TUDO É MENTIRA
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#Cronica Fazendo Biquinho

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O hábito lhe perseguia tal qual um vício: fazia biquinho em todas as fotos. Quase uma sina. Bastava um convite para uma foto, ajeitava a roupa, uma pose cuidadosamente elaborada e… o biquinho se formava na boca disforme, antes do flash espocar seu rosto.

Não sabia tirar fotos de outra forma. Sozinha em frente ao espelho ou em uma festa com amigos – se não fazia bico, a foto ficava crua. Faltava algo: brilho, intensidade, verossimilhança. Preferia que lhe cortassem metade da cabeça pelo péssimo enquadramento, mas o bico não podia faltar. Seu ego não merecia tanto descaso.

As amigas, no começo, zombavam. Diziam ser ridículo, e outros degenerativos. Com o tempo, porém, começaram a sentir uma pontada de inveja. Não demorou muito, e a pontada virou um soco no estômago de pura inveja ferina. A velha história: a amiga sempre sai melhor nas fotos, por mais que o orgulho intempestivo as obrigue a negar.

No final, estava armada a competição. Quando saiam juntas nas fotos, cada uma queria fazer um bico mais imponente. Biquinhos suaves deram lugar a bicos disformes. Os transversos e mentonianos contorcidos e retorcidos em caretas assustadoras. Seriam facilmente aprovadas como figurante em qualquer uma das sequências de Star Wars, mas ainda acreditavam ser os exemplares mais transparentes da sedução feminina.

A competição foi se tornando cada vez mais acirrada. Quem fazia o maior bico, ganhava mais comentários e elogios nas fotos nas redes sociais. A amizade se desvaneceu ante a disputa de quem tinha o bico mais bicudo entre as bicudas.

Certo dia, na balada, na foto com as “amigas”, ela esticou o biquinho o máximo que pode. Os lábios disformes se estenderam centímetros a frente do nariz. O músculo orbicular retesado, o risório deformado, zigomáticos e depressores rasgando-se num esforço descomunal. Enquanto em pose, antes do click, percebeu seu bico anormalmente saltado, e sentiu-se satisfeita por se conscientizar de que nenhuma das amigas jamais conseguiria algo parecido. Ia ganhar todos os elogios ao postar a foto nas redes. Seu bico curtido e compartilhado, o alvo dos holofotes.

Mas, não houve tempo para muita comemoração. Após o instante do flash, para seu desespero, o bico não voltou ao lugar. Travado. Represado. A careta não se desfez. Os músculos tesos, tensidade absurda. E a boca, enfim, condenada ao bico eterno.

Hoje em dia, por onde passa, é alvo de olhares comiserados, acompanhados por declarações como: “pobre menina!”.

Menos as amigas que até hoje, quando se encontram, ainda sentem aquela inegável pontada de inveja.



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#Cronica Amor e sexo na voz de uma mulher (por Xico Sá)

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Nada mais reconfortante do que ouvir a voz de Iris Lettieri (na foto) antes de embarcar no Antonio Carlos Jobim, o Galeão. Aquele aveludado, com tons de grave nada cinza, nos leva aos céus antes mesmo de qualquer partida.

Agora só é possível ouvi-la no internacional do Rio. Já esteve em outros no passado, como em Foz do Iguaçu, Manaus, Congonhas etc.

Na vastidão do Galeão a voz nos pega no colo, sussurra ao miocárdio, mostra que uma fêmea, muitas vezes, sequer precisa de um corpo.

Repito velha tese: mulher é metonímia, parte pelo todo. Basta um narizinho aqui, uma omoplata acolá, e está ganha a vida. Não carece ser bonita por completa. Melhor que não seja.

Voltando a ouvir atentamente La Lettieri, incluo a voz como parte dessa história. Com uma bela voz dentro do seu chatô, pouco importa que corpo tenha. Você só necessita daqueles fonemas noturnos ou matinais. Você vive de sussurros como um passarinho de alpiste.

A carioca dona da voz mais bonita do Brasil -Simone, de Olinda, com quem estudei, talvez seja páreo- foi a primeira mulher a apresentar um telejornal no país, na TV Globo, anos 1970. Depois foi para a TV Manchete, foi modelo, cantora, uma deusa.

Homens do mundo inteiro querem fazer amor com a voz de Iris. O Faith No More, por exemplo, incluiu, sem permissão, a gravação de sua voz na faixa “Crack Hitler”, do disco Angel Dust, de 1992. Deu um rolo danado. Achei uma bela homenagem.

Ao partir agora para o Recife, via Galeão, fechei os olhos, me senti em um quarto escuro, fazia amor com aquela voz. Para fazer amor com uma voz não é preciso o gemido de gozo mais explícito de Brigitte Bardot em “Je t’aime moi non plus”.

Na voz de Iris, basta um Air France, voo 447, Rio/Paris… Basta um Gol, voo 1150, do Rio de Janeiro para o Recife… Nem carece que estejas indo para os braços da(o) amada(o). A viagem de negócios mais chata do mundo se torna um veraneio em Bora-Bora.

É sim possível fazer amor com uma voz. Viajo feliz. Como se nas asas da Panair e do desejo.



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